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Os povos vivem de fermento heróico

estudiantes meicinaOUTROS lamentam a morte necessária: acredito nela como o travesseiro, o fermento e o triunfo da vida. Na manhã seguinte à tempestade, através da bacia das árvores desenraizadas, a terra é a fonte de frescura, o verde das árvores é mais alegre, o ar é cheio de bandeiras e o céu é um dossel de glória azul.

Outros lamentam a morte bela e útil, onde a pátria higienizada resgatou sua cumplicidade involuntária com o crime, onde se eleva aquele fogo puro e invisível, no qual as almas fiéis são endurecidas e temperadas para o futuro. Do berçário das tumbas, levantam-se impalpáveis, como a névoa do amanhecer, a virtude imortal ou a terra tímida, chicoteando os rostos vis, absorvendo o ar, entrando triunfantemente nos corações dos vivos: a morte dá chefes, a morte dá lições e exemplos, a morte leva o dedo sobre o livro da vida: assim, a partir desses elos invisíveis e contínuos, a alma do país é tecida!

A palavra viril não se agrada de descrições assustadoras; nem o arrependido deve ser oprimido por açoitar os iníquos; nem a tumba do mártir se tornaria um local de combate; nem foi dito, mesmo na beleza cega das batalhas, o que move as almas dos homens à ferocidade e o ressentimento.

Nem é dos cubanos, nem nunca será, entrar no sangue até a cintura e animar com um monte de crianças mortas, os crimes do mundo: nem é para os cubanos viverem, como o chacal na gaiola, girando o ódio ! O que almejamos dizer aqui é com que amor carinhoso, um amor purificado e angelical, nós queremos as criaturas que do decoro subiram do relâmpago à sublimidade e que caíram, pela lei do sacrifício, que se publique ao mundo indiferente até mesmo para o nosso clamor, a justiça absoluta com a qual a terra foi levantada contra seus donos: o que queremos é saudar com inefável gratidão, como um símbolo misterioso da força da pátria, do poder oculto e seguro da alma crioula, a quem, à primeira voz de morte, se levantaram sorrindo, do apego e covardia da vida comum, ao heroísmo exemplar.

Os povos vivem de fermento heróico. Muito heroísmo tem que limpar muitos crimes. Onde alguém foi muito vil, outrem tem que ser muito grande. Magníficas leis atravessam o invisível da vida. Para abalar o mundo, com o extremo horror da desumanidade e da ganância que domina sua terra natal, eles morreram, com a poesia da infância e a sinceridade da inocência, nas mãos da desumanidade e da ganância.

Cantemos hoje, diante da sepultura inesquecível, o hino da vida. Ontem ouvi-o na mesma terra, quando cheguei, à tarde sombria, a esse povo fiel. Era a paisagem molhada e enegrecida; o riacho lamacento corria turbulento; os juncos, poucos e mofados, não exibiam sua cor verde, como os queridos, onde pedem redenção os que os fertilizaram com a morte, mas entraram brutais e hirsutos, como punhais estrangeiros, através do coração: e em cima de nuvens rasgadas, um pinheiro, desafiando a tempestade, de pé alto, mostrava sua folhagem. De repente, o sol surgiu sobre uma clareira da floresta e, lá, ao clarão da luz repentina, vi sobre a grama amarelada em pé, ao redor do tronco preto dos pinheiros caídos, os alegres aglomerados dos novos pinheiros: esses somos nós: os novos pinheiros!

Trechos do discurso proferido em 27 de novembro de 1891.

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