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Dezembro em Havana é sinônimo de filmes

xonia gragaO que você viu hoje? para alguns; Quantas assistiu hoje?, para outros, são as perguntas mais frequentes que se escutam, em dezembro, em Havana. Centenas de espectadores frequentam as salas, poucas por sinal, desmentindo aquilo de que já ninguém frequenta cinema. A sala escura, a grande tela, ainda cativa.

Primeiramente, foram os números do concurso, falamos de longas-metragens, 18 de sete países e mais oito na categoria de obra prima, de dez países. Aqui a seleção é por diretores ou atores e atrizes conhecidos e depois pelos enredos. Quanto às obras primas, é claro, torna-se mais difícil acertar no alvo.

Depois, outras escolhas, entre as funções de gala, apresentações especiais, filmes fora do concurso, uma dezena de seções fora da competição, as amostras, as homenagens, as apresentações especiais. Alguns almejam poder ter o dom da ubiquidade, catálogo em mão.

Certamente, na 38ª edição, com suas mais de 400 fitas, houve para satisfazer todos os gostos, ainda que a memória falasse de outros mais brilhantes festivais de Cinema de Havana.

Mas já se apagaram as luzes das salas de cinema e concluiu o encontro mais esperado pelos espectadores havaneses. Agora, cabe fazer um reconto do acontecido, os prêmios, os convidados, os diálogos, os critérios e os sempre eternos desencontros entre o júri, os críticos e o público. Neste ano não foi diferente.

A fita mexicana Desierto, dirigida por Jonás Cuarón, obteve o Prêmio Coral ao Melhor Filme de Ficção. Conta com as atuações do norte-americano Jeffrey Dean Morgan e o mexicano Gael García Bernal, e poderia resultar que a temática tão atual da fita, que trata sobre um grupo de mexicanos indocumentados que tenta cruzar a fronteira com os Estados Unidos pelo deserto que separa ambos os países, influísse no júri que liderou o argentino Tristan Bauer.

Agora que chegou em pessoa, pela primeira vez, a brasileira Sônia Braga empolgou Havana, com sua avassaladora simpatia e sua naturalidade. Tinha-o feito antes com três personagens de Jorge Amado: Dona Flor e seus dois maridos, e ao lado de Marcello Mastroianni em Gabriela, Cravo e Canela, ambas dirigidas por Bruno Barreto, e na fita Tieta do Agreste. Já convertida em uma das maiores atrizes de seu país, pudemos vê-la em O beijo da mulher ara-nha, de Héctor Babenco, junto a Raúl Juliá e William Hurt.

Agora, Sônia Braga comove com Aquarius. Tal como Clara, sua protagonista, tem um desempenho memorável, recebendo, não só uma extensa ovação mas desta vez, o júri deu certo e a recompensou com o Coral à Melhor atuação feminina. A Fipresci (Federação Internacional de Críticos de Cinema) e a Signis (Associação Católica Mundial para a Comunicação) deram seus prêmios a Aquarius.

O cubano Luis Alberto García, por seu papel de Esteban em Ya no es antes, do diretor Lester Hamlet, foi merecedor do Coral à Melhor atuação masculina e a fita recebeu o Prêmio do Público.

Últimos días en La Habana, de Fernando Pérez, com um poderoso trabalho de interpretação de Jorge Martínez, obteve o Prêmio Especial do Júri.

A fita argentina El Ciudadano ilustre, escolhida para ser exibida no primeiro dia do Festival, somente recebeu o Coral ao Melhor Roteiro, mas nos prêmios colaterais obteve o da Associação Cubana da Imprensa Cinematográfica.

A El Ciudadano ilustre, com um desempenho magnífico de Óscar Martínez, é uma fita que vale a pena ver. Sua premissa seduz de entrada: Daniel Mantovani, Prêmio Nobel de Literatura, regressa ao seu povoado natal para ser distinto, mas esse regresso se transforma em uma peregrinação infernal.

Neruda, sexto filme do diretor chileno Pablo Larrain, atingiu dois Corais: Direção Artística e Edição. O filme mistura ficção e história real, pelo que não oferece uma biografia precisa do poeta, Prêmio Nobel. Em Havana um de seus atores, Luis Gnecco manifestou seu regozijo pela positiva reação do público cubano diante a fita. Gnecco encarna o papel do poeta, enquanto o mexicano Gael García Bernal interpreta o detetive Peluchonneau.

Para aqueles que entendem que os prêmios importam mesmo, Neruda acaba de ser indicada como Melhor fita de fala não inglesa aos Globos de Ouro, essa sorte de radar prévio aos prêmios Oscar 2017.

Muito empolgante foi a entrega do Coral de Honra ao cineasta cubano Enrique Pineda Barnet. Recebeu a distinção entregue pela atriz Beatriz Valdés, figura principal de sua fita La Bella da Alhambra (1989), com a que o reconhecido realizador obteve o Coral.

Entre as Galas, a de mais significado foi Snowden, apresentada por seu diretor Oliver Stone, consagrado por filmes como Platoon, Nascido em 4 de Julho, Wall Street e JFK.

Stone teve um encontro na sala Taganana, do Hotel Nacional com a imprensa credenciada, onde comentou aspectos do roteiro do seu documentário sobre Edward Snowden, o qual qualificou de “exercício sério de jornalismo e cinema”.

Em outro tema, Stone falou acerca de sua admiração por Fidel, de quem disse admirava “sua personalidade forte, seu poder. Admiro ele por aquilo que aprendi nessas entrevistas (referindo-se a Comandante, de 2003, Buscando a Fidel, 2005 e Castro in Winter, 2012 e porque não duvidou em se revoltar e defender suas ideias”.

Convidados especiais? O diretor norte-americano Brian de Palma, quem com o descomunal sucesso da primeira adaptação de uma novela de Stephen King, Carrie (1976), colocou-se como um dos mais interessantes autores do novo cinema de Hollywood, e depois é lembrado por Os intocáveis (1987); o colombiano Víctor Gaviria, quem obteve o Coral ao Me-lhor diretor por La mujer del animal, uma fita com argumento baseado em um fato real, ou a espanhola Marisa Paredes, que esteve várias vezes no Festival, com fitas como Profundo carmesí, El coronel no tiene quien le escriba e Tacones lejanos.

Grande homenagem ao 30º aniversário da Escola Internacional de Cinema e TV de San Antonio de los Baños, com um prêmio Coral incluído. Essa escola foi inaugurada, durante o oitavo Festival, por Fernando Birri, Gabriel García Márquez e Julio García Espinosa, então presidente do ICAIC e do próprio Festival, em um ato presidido pelo Comandante-em-chefe Fidel Castro.

Assim começou o atual presidente do Festival, Iván Giroud, seu breve discurso de abertura: “para Fidel vão as primeiras palavras, foi uma inspiração e um dos impulsores do cinema latino-americano”.

A concorrência pelos prêmios Coral voltará em 2017, com novas fitas, novas vozes, a esperança de novas temáticas e, o improvável, um júri que julgue, mais além, naturalmente, mas sem diferenças descomunais com as centenas de espectadores.

(Granma)

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